A França muda
07.05.2012 | 4:49 am
O fato mais importante na política mundial foi a mudança de rumos na Franca. Venceu François Hollande e com sua vitória começa uma nova fase em que a crise econômica não será combatida prioritariamente com austeridade.
Vai dar certo? Economistas famosos como Paul Krugman afirmam que a mudança era necessária e que austeridade nesta crise só faz aprofundá-la.
Mas as coisas são um pouco complicadas na Europa. A grande economia do continente, a alemã, cresceu mais que o Brasil, no ano passado,sob uma política de austeridade.
Jovens, profissionais liberais e trabalhadores quiseram mudar. A França muda. Sua experiência pode iluminar a de muitos países, como a Grécia, Portugal e Espanha.Vamos acompanhar.
Fim de semana na neblina
06.05.2012 | 8:02 pm
Seis horas na ida, seis na volta. Foi uma longa viagem que fizemos neste fim de semana, o poeta Ferreira Gullar e eu. Valeu a pena porque cruzamos regiões dos tres estados do sudeste e, na volta, encontramos uma neblina daquelas de começo de inverno em Minas Gerais.
A visibilidade nem sempre era boa. Mas a neblina foi se dissipando sobre o sol brilhante.
A viagem valeu a pena não só por conhecer a Feira de Livros de Poços, mas também por ouvir uma bela palestra de Gullar, que não tinha tema precombinado.
Ele apenas falou de sua vida, da poesia, de como surgem os poemas e como, de certa forma, são indomáveis. Ele não define com antecedencia o conteudo de seus poemas. Deixa que apareçam e se imponham.
Falei um pouco sobre as cidade e as eleições, nesse momento da história política do país, em que monitoramento e transparência tornam-se elementos essenciais.
Recomeço na manhã de segunda na Band. Meu tema é a reportagem da Época mostrando como a agenda oficial do governador do Rio esconde suas viagens. A transparência, nesse caso está demorando a se apresentar.
O direito de saber
05.05.2012 | 12:14 am
Parto hoje com o poeta Ferreira Gullar para uma viagem a Poços de Caldas, onde há uma feira de livros e, como não podia deixar de ser, alguns debates.
Continuo atento aos fatos do Rio. Ontem, Garotinho fez um discurso na Câmara, afirmando que tem uma gravação comprometedora.
Segundo ele, Cavendish estava abrindo caminho para Cachoeira no Rio, em troca de seus serviços no Centro-Oeste. E exigiu que os bicheiros dessem um espaço para o empresário goiano.
Ainda segundo Garotinho, os bicheiros se recusaram e, em represália, a policia civil fez uma operação prendendo todo os seus maiores nomes.
Isso foi o que disse na tribuna e o tema foi republicado em alguns jornais. Ele informou que não mostrava a gravação porque ainda não tinha certeza de sua autenticidade.
Imagino que autenticidade, nesse caso, é saber se a gravação foi ou não manipulada. Dificilmente, será posivel confrontá-la com as vozes dos protagonistas. Não creio que seja uma peça de teatro radiofônico, gravada por atores.
Não consegui confirmar a história de Garotinho. Apesar do serviço prestado pela divulgação das imagens, as vezes ele promete revelações no site e não cumpre.
Prometeu, por exemplo, dar uma informação sobre o assalto à casa do Vice Luiz Fernando Pezão, transmitida por uma fonte da Secretaria de Segurança. Até agora nada.
Tentei investigar a história do assalto, porque desconfiei dela. Apurei, entretanto, que o assalto tem mesmo características comuns. O único apartamento que não tinha chave papaiz, o do vice-governador tornou-se um alvo mais atrativo porque entrar nele tomava menos tempo e barulho.
Alem disso, havia jornais acumulados na porta, indicando a ausência dos moradores. Registro isso porque acho que os fatos, apenas eles, podem nos levar ao conhecimento do que realmente está se passando.
E os fatos já divulgados por Garotinho, através das imagens, são graves. O Estado de São Paulo, por exemplo, publica matéria indicando que a área onde está a casa do governador Cabral, em Mangaratiba, é uma área de proteção ambiental e as construções só foram permitidas ali por uma manobra do prefeito de Mangaratiba.
Possivelmente a casa dos três personagens da festa em Paris (Fernando Cavandish, Sérgio Cortes e George Sadala) estejam na mesma área de proteção ambiental.
Se a justiça considerar procedente a queixa de moradores de um condomínio vizinho, estaremos diante de um novo fato grave, às vésperas da Rio+20, a conferIencia da ONU sobre meio ambiente.
Temos o direito de conhecer todas as quase 100 viagens de Cabral. Com quem foi, o que fez, quem pagou. Esses gastos nunca ficaram claros no orçamento do estado.
Cabral poderá argumentar que muitas dessas viagens são particulares logo indagar sobre elas significa invadir sua privacidade. Acontece que ele está no centro de um escândalo em que as suspeitas recaem sobre suas viagens.
Alegar privacidade quando se questiona o uso do dinheiro público é negar o direito coletivo de saber como são empregados os recursos de todos.
Num dos artigos que escrevi no Estado de São Paulo afirmei que a Assembléia negou que se apurassem esses dados e quando foram pedidos na Câmara, o PMDB blindou Cabralm negando-os também.
Essa busca incessante dos dados sobre as viagens é um mérito do mandato de Garotinho e, por maiores que sejam nossas divergências, não posso negá-lo.
Conhecer todas as viagens de Cabral e os vínculos de seu governo com os empresários é um problema do qual a sociedade não pode se esquivar, sob pena de sinalizar indiferença diante de um provável saque aos cofres públicos.
Digo essas coisas sem pretensão de ser o dono da verdade mas apenas de colaborar. A tropa de choque de Cabral já iniciou seus ataques na internet.
Eles são patéticos. Durante a campanha de 2010, empresas de perfis foram contratadas para repercutir seus pronunciamentos. Era tão visível aquele corrente de comentários encomendados partindo de fonte externas que recolhemos o material e oferecemos aos jornalistas, para demonstrar que compraram um pacote de serviços na internet e o apresentavam como manifestações espontâneas. Não houve interesse.
Respeito muito tudo que falam de mim, quando vem de pessoas reais, não importa o nível de discordância que tenhamos. Responder a campanhas pagas é o mesmo que ficar brigando com uma gravação ao telefone.
Mesmo porque jamais vi na internet uma pessoa real afirmando que não temos o direito constitucional de saber sobre as viagens do governador, contratos com a Delta e outras empresas sospechosas.
Na campanha, fui à porta da Toesa para enfatizar os enormes desperdícios com ambulâncias. Este ano, a Toesa foi desmascarada, finalmente. A Facility, dizem, já até mudou de nome, tão chamuscada que saiu das constantes denúncias..
Se não houvesse aquela reportagem no Fantástico sobre corrupção na saúde, Sérgio Cortes continuaria a manter os contratos com a Toesa.
Garotinho prestou um serviço, não importa o que se pense dele. Ele tem razão em afirmar que nada será como antes. Agora ficou claro que é necessário investigar para saber realmente o que se passou nesses cinco anos e quatro meses.
Os que nos negam um direito constitucional, como os deputados que recusaram uma CPI, que ocupem suas trincheiras. A luta pela transparência não tem apenas uma base racional: ela se apoia na lei. Com todo respeito pela maioria de eleitores que votou em Cabral essa condição majoritária não confere a ninguém o poder de atropelar a lei.
FALA SADALA
03.05.2012 | 5:21 pm
Recebi de George Sadala uma nota esclarecendo o papel de sua factoring Lavoro. Ela foi mencionada num blog anterior com a hipótese de estar entre a Delta e o governo.
Ele garante, com argumentos consistentes, que isto é impossível, pois trabalha apenas com pequenas empresas e não resgata dívidas junto ao governo.
Uma nota da Associação Nacional de Empresas de Fomento Mercantil, que publiquei no comentário do blog sobre Sadala, afirma, entre outros coisas, que as factorings não trabalham com negócios ilegais e são controladas rigorosamente.
A íntegra da nota de Sadala é esta:
Espero que Sadala, que esclareceu com rapidez a história da factoring, compreenda os aspectos politicos e democráticos que estão em jogo. Existem empresários que fazem negócio com o governo e empresários que não fazem. Existem os que fazem fortuna meteórica no mercado financeiro e que não têm relação com o governo. Sadala fez uma fortuna meteórica e tem negócios com o governo.
É razoável que pergunte: quem é esta pessoa com um guardanapo na cabeça dentro de uma farra da cúpula do governo?
Ele participa da concessão do Poupa Tempo, algo que é outorgado pelo governo. Ele é o representante do BMG no Rio que uma poderosa faixa de crédito consignado de funcionários estaduais. Isto está no Globo de hoje.
Sadala estava ao lado de Sergio Cortes. Ele venceu concorrências para vender redes na campanha contra a dengue como circula na internet? Nesse caso, Sérgio Cortes seria o comprador pelo estado.
Foram circunstância que envolvem o interesse público me fazem perguntar sobre ele, de copo na mão, atrás das mulheres que exibiam os sapatos Christian Louboutin.
Sadala afirma que a factoring nada tem com a Delta. Mas sua proximidade com Cavendish e Cabral é indiscutível. Mora num apartamento, na Vieira Souto, que foi de Cavendish. Em Mangaratiba, assim com Cavendish, tem casa ao lado de Cabral e de Sérgio Cortes.
Não me interessam como se fazem as fortunas. Mas quando há essa proximidade com a Estado, os pedidos de explicações são legítimos.
A nota sobre a factoring, como disse acima é consistente, mas as outras perguntas que estão no ar precisam ser respondidas.
Sadala vai contratar uma assessoria de imprensa e isso pode agilizar as respostas. Não pense que me interessam relações pessoais de amizade. Mas quando se entrelaçam dessa maneira, mobilizando mais de um bilhão de dinheiro público, não posso ficar calado.
Há muitos deveres em jogo. Como jornalista é preciso informar e corrigir a informação. Como candidato derrotado por Cabral, representando uma pequena parcela da população fluminense, sou responsável por esses votos, pelo menos até o fim do mandato ao qual concorri.
Por mais que os episódios de Paris sejam desagradáveis na forma e no conteudo não posso subestimá-los. Num artigo no Estadão, O Fator Delta, afirmava, antes da divulgação das fotos: se houvesse transparência nas viagens de Cabral com Cavandish examinariamos com lupa os contratos da Delta, jamais teríamos destinado dinheiro, sem licitação, para que a empresa cuidasse de obras de recuperação da serra.
Levou tempo, mas o Brasil descobriu Cabral. Vivemos uma nova etapa. Não estranhem por favor o interesse que temos pelo tema. Em qualquer país do mundo, o desinteresse seria impensável.
As relações entre politicos e empresários entraram na agenda. Existem empresários que querem trabalhar limpamente com o governo e existe uma opinião pública que exige respeito pelos recursos coletivos.
Cavendish não me parece do tipo que queira trabalhar limpamente. Baseio-me na gravação em que afirma que obtem tudo dos politicos comprando-os por alguns milhões.
Espero que ninguém se sinta ofendido. Mas continuaremos perguntando.
PS: O asessor de imprensa de Sadala, Renato Nassar, informa que ele jamais participou de licitações para vender redes. E que no BMG não cuida de contratos com o governo.
O BMG, é aquele banco que foi envolvido no mensalão. Como teria, com seu peso específico, conquistado uma fatia grande do crédido consignado do funcionalismo público do Rio?
Paris, a festa continuou
| 9:24 am
Nas reuniões de antigamente, costumávamos brincar dizendo que a agenda era essa: quem somos, onde estamos, para onde vamos.
Ficarei apenas com a segunda pergunta: onde estamos? Com as revelações de uma das viagens do governador Cabral a Paris, ficou claro a relação estreita entre ele e o dono da Delta, Fernando Cavendish.
Governo e empresa fizeram negócios no valor de R$1,5 bilhão. Em qualquer pais do mundo, esta relação íntima seria questionada, mesmo porque muitas das obras foram contratadas sem licitação.
Ao lado do governador, entre outros, havia o secretário de saúde, Sérgio Cortes, que enriqueceu nos últimos anos, sob acusações de corrupção no setor.
A imprensa não falará mais nisso, em breve, exceto quando aparecerem novas evidências. A Assembléia, com o pequeno peso da oposição, não conseguirá fazer uma CPI. E o PMDB em Brasília decidiu fazer tudo para blindar Cabral, na CPI do Cachoeira.
Estamos num estado em que essas coisas acontecem e não trazem consequências institucionais. Isto não significa que não serão descobertas e reveladas. A história será escrita, de uma forma ou de outra.
As imagens de Cabral, Cavandish e o grupo de guardanapo na cabeça, foram divulgadas e comentadas em profusão. Creio que, no futuro, o exame dessas imagens poderão trazer novas descobertas.
Lembro-me de um livrinho que ensinava a ver quadros e seu título era: Não estou vendo nada. O autor chamava a atenção para o fato de olharmos um quadro e acharmos que nada de interessante pode ser encontrado ali.
As imagens de Paris podem na verdade suscitar muitas páginas de análise. Em tese, revelam a amizade íntima entre Cabral e Cavendish. Na prática, mostram um certo tédio de jantares de negócio.
Cabral gasta grande parte do jantar acompanhando noticias no celular. Havia no primeiro video um pouco de ansiedade quanto ao tempo, pois faltavam apenas alguns minutos para a meia noite e a primeira dama faria aniversário.
Num certo momento, Cabral decide que Cavendish deve dar um beijo na boca da futura esposa. E exige que ela abra bem a boca, num tom grosseiro.
O tédio num restaurante vazio e com um grupo de garçons dedicado apenas à mesa dos milionários brasileiros, fica mais claro quando surge um fragmento de video já no final da festa:
-Lets win (sic) some money – diz Cavendish, propondo uma ida ao cassino. Aquilo parecia a saída para o impasse. Já que não conseguiam um diálogo interessante, por que não apelar para a única coisa que realmente os mobiliza: ganhar algum dinheiro.
O fragmento é muito rápido. Tenho a sensação de que, diante da proposta de Cavendish, uma das mulheres diz: só se for muito (dinheiro) pois dá trabalho.
Se minha percepção for verdadeira, a autora da frase considera o dinheiro ganho em jogo como muito trabalho. Imagino o que não acharia da vida comum do assalariado, longas viagens em transporte coletivo, oito horas na empresa.
Um dos pontos que destaquei no debate sobre o livro de Alan Riding, Paris, a festa continuou, que trata de vida cultural da França durante a ocupação nazista, era o fascinio que a cultura francesa despertava nos alemães.
Tanto Hitler como outros dirigentes nazistas eram os maiores compradores e ladrões de quadros. Os oficiais alemães frequentavam galerias, iam ao teatro e ao cinema e, de certa forma, garantiam plateia numa Paris ocupada.
Ao mesmo tempo em que era fascinado pela cultura francesa, Hitler pensava em impor a hegemonia da cultura alemã. Queria que as peças de teatro fossem leves e, de preferência kitsh. E destinou grandes verbas para introduzir a cultura alemã em Paris.
A sedução pela cultura francesa ainda existe em milionários do novo mundo. Um estilista que produz sapatos como Christian Louboutin é também um produtor cultural. Um chefe de cozinha que tem restaurantes em todo mundo também é um fato cultural.
São produtos que você pode consumir, se tiver muito dinheiro, sem grande esforço mental. E são produtos que se compram para anexar à própria imagem o prestigio que eles desfrutam.
Goering escondeu 60 quadros roubados no seu sítio. Queria apenas contemplá-los em segredo. O nazismo representa um momento de bárbarie na história da humanidade. Não serve como parâmetro para definir erros em governos democráticos. Eles queriam dominar o mundo.
Nossos protagonistas queriam apenas fazer parte da elite mundial, frequentar os mesmos lugares que os milionários, usar o mesmo sapato que as estrelas do mundo pop.
É apenas uma patética tentativa de inclusão numa aristocracia cujas bases começam a ser moralmente sacudidas por uma crise econômica de grande dimensão.
Cavendish parecia o mais sensato no final da festa: vamos ganhar algum dinheiro. É tudo que sabem fazer. É tudo que continuarão a fazer num estado que perdeu as referências elementares de respeito as regras de uma democracia social. É estado dos mais espertos, dos malandros e hipócritas em todos os poderes, totalmente alheios ao sofrimento do povo.
Sadala, personagem da festa em Paris
02.05.2012 | 7:51 am
Ele aparece em Paris, com um guardanapo na cabeça ao lado dos secretários de Cabral e Cavendish. Trata-se de Georges Sadala, o homem que tem a concessão do Poupa Tempo, em Minas e no Rio.
Muita gente queria saber quem era o homem de copo na mão que posava perto das mulheres exibindo sapatos Christian Loboutin.
Ele é amigo de Cabral e também de Aécio Neves que foi seu padrinho de casamento. O filho de Cabral foi pagem na mesma cerimônia.
Sadala é dono de uma factoring chamada Lavoro. Ela compra dividas que as empreteiras têm a receber do governo. Em seguida, ele recebe o dinheiro do governo.
É o meio de campo entre empreiteiras e estado. Para que ele receba a dívida do governo alguém tem de assinar e isto deveria estar registrado.
Os negócios da factoring de Sadala com o governo Cabral podem ser um bom caminho de pesquisa para obter a transparência sobre todo o processo.
Sadala é o novo personagem. Se a imprensa não se interessar por ele, tudo bem. Os fatos acabarão aparecendo e todo esse período será esclarecido um dia.
Ele não aparece com um guardanapo branco branco na cabeça , entre secretários de estado, por acaso
Entre o assalto e a pizza
30.04.2012 | 9:57 pm
Depois de um longo dia de trabalho, acabo me voltando de novo para esse escândalo no Rio, acionado pela divulgação das imagens do governador Cabral com o dono da Delta num luxuoso restaurante de Mônaco, inicialmente tomado pelo Ritz de Paris.
Estava concentrado na imagem do secretário de Saúde, Sérgio Cortes com uma pizza na mão e uma Coca Cola na outra, em plena noite parisiense. Em alguns países seria repreendido por razões puramente técnicas: não é a refeição ideal para um secretário de saúde.
Mas aqui a história é outra. Depois de tantas acusações de corrupção na saúde, da manobra para escapar do processo sobre compras desastrosas e superfaturamento, simbolizar que tudo acabou em pizza é muito pouco.
Na verdade, tudo acabou em caviar e champagne nos grandes restaurantes de Paris, Mônaco e Cannes. Essa imagem de Sérgio Cortes deveria ser estampada na porta de todas as emergências dos hospitais do Estado. As pessoas iam entender rapidamente porque são mal tratadas.
Justamente quando contemplava a figura patética numa rua de Paris, chega a noticia estranha do assalto ao apartamento de Luiz Fernando Pezão, no Leblon.
Pezão é vice-governador e gerente de todas as obras no Rio. Não há casas de vice sem segurança. Na Nascimento, uma viatura guarda diuturnamente a casa de uma ex-mulher de Sérgio Cabral.
Por que abandonariam Pezão? Sobre a cama, os policiais acharam 15 caixas de jóias vazias, deixadas pelos ladrões. Não tenho uma visão estatística de quantas caixas de jóia um casal costuma ter em seu apartamento. Eram jóias de fantasia ou um investimento seguro para seu dinheiro?
Talvez os ladrões possam ter deixado ali para despistar. Talvez outros motivos os levaram ali. Tudo muito nebuloso, logo depois da divulgação das imagens envolvendo a Delta e Cabral.
Pezão é um grande defensor da Delta. Disse, precipitadamente que as investigações eram inúteis, estava tudo em ordem. Decidiu afundar com a Delta. Deve ter suas razões. É possível que guarde também alguns documentos em casa.
Teria sido esse o objetivo do assalto?
Tudo muito misterioso nesse fim de segunda feira. Imagino que os repórteres policiais trabalhem no feriado.
Como não havia segurança no prédio do vice-governador? Por que foi a única casa assaltada no prédio? Por que não havia câmera ?
Será que tudo isso acontece por acaso? No auge de um fim de semana conturbado mostrando as vísceras da relação governo-Delta, a casa de Pezão é assaltada. Uma possibilidade entre milhões, um acaso extraordinário?
A única certeza é que Pezão estava ausente, de férias na Itália. O que significa que alguns jóias foram preservadas, pois sempre se levam as melhores para essas ocasiões.
Paris é uma festa
29.04.2012 | 9:33 am
Na sexta feira, publiquei um artigo no Estadão, O Fator Delta, afirmando que existia uma conspiração de muitos poderes em torno de Sérgio Cabral no Rio.
Cabral levou seis anos descobrindo o mundo e jamais tinha visto uma reportagem, com texto e fotos, sobre suas luxuosas aventuras internacionais.
Na quinta feira à noite, participei de um debate com Alan Riding, correspondente cultural do New York Times na França, para o lançamento do seu livro “Paris, a Festa continuou”. Foi na livraria Travessa do Leblon.
O livro tem no titulo uma clara alusão ao célebre Paris é Uma Festa, de Ernest Hemingway. Mas fala de como os franceses e parisienses continuaram se divertindo, mesmo durante a ocupação militar alemã.
As duas atividades se entreleçaram com a revelação, pelo Blog do Garotinho, de alguns vídeos mostrando a intimidade do dono da Delta, Fernando Cavendish, com Cabral, no suntuoso restaurante do hotel Ritz, que, por sinal, também foi usado pelo estado maior alemão.
Como sabem, o TRE tirou meu programa partidário do ar, em 2010, e determinou multa por ter falado da amizade Cavendish-Cabral.
Não preciso falar muito. Nem fazer legenda para a foto dessas mulheres exibindo em Paris os sapatos Christian Louboutin, que custam até R$ 10 mil reais.
Elas o exibem como os caçadores exibem a cabeça de um leão, um troféu valioso que vale ser mostrado. Não costumo fazer legenda para fotos eloqüentes. Lembro apenas que alem de mulher do governador, Sra. Adriana Ancelmo, está nessa foto a mulher do Secretario de Saúde Sérgio Cortes. Ele, aparece também, numa outra foto, com uma toalha na cabeça dançando ao lado de Cavendish.
Toda minha campanha foi feita para denunciar os laços de Cabral com as empreiteiras. Fiz até programas na obra estagnada do Arco Metropolitano.
Mas o centro mesmo era a corrupção na saúde, com Toesas e Locantys, botando para quebrar. Sérgio Cortes foi protegido pela Globo que interrompeu uma série de reportagens sobre corrupção na saúde para não influenciar as eleições e enfraquecer Cabral.
Corrupção na saúde mata. A mesmo Globo fez uma excelente reportagem mostrando como funcionam as licitações nos hospitais públicos. Mas as investigações não avançaram. As empresas deram a impressão de que tudo era culpa de seus funcionáricos açodados que queriam fechar negócio de qualquer maneira.
E o governo fingiu que não era com ele. Os fatos durante a campanha e agora em 2012 revelam que a corrupção na saúde continuou.
Sérgio Cortes com a toalha na cabeça e sua mulher exibindo sapatos caros em Paris me indignam porque ele comanda a saúde no Rio.
Um estado que convive alegremente com a corrupção na saúde, enquanto os responsáveis pelo setor festejam em Paris, chegou a um ponto de degradação interna que só um grande movimento popular pode superar.
A assembleia está com eles, a grande imprensa está com eles, o judiciário está com eles. As eleições mostraram que a maioria da população também está. Será que ela continuará com eles, mesmo sabendo de tudo?
Nesse caso, um dos caminhos é o exílio na própria cidade. Ou prosseguir, pacientemente, na denúncia na esperança de que um dia a levem em conta.
Fotos da semana, rua e estrada
27.04.2012 | 5:24 pm
Semana corrida. Aos sábados e domingo tenho me dedicado ao video. É um aprendizado dificil. Sinto-me como em todo o idioma que procurei aprender: ainda não encontro as palavras adequadas no momento certo.
Consigo apenas ilustrar meus comentários na Band.
Mantenho a câmera de bolso e vi coisas interessantes nos intervalos de reuniões em São Paulo.
As outras são fotos do Rio, Ipanema, Lagoa, caminho para o Flamengo. Não posso me queixar da semana. Nem só de trabalho se vive.
O fator Delta
| 8:59 am
No princípio, alguns políticos queriam excluir a Delta da CPI do Cachoeira. Desistiram. Era como arrancar o delta do alfabeto grego. Depois se falou em concentrar as investigações no eixo Brasília-Goiás. Mas o delta é foz de um rio com muitos braços e canais. Acidente geográfico, a Delta está no Rio de Janeiro.
Da cachoeira à foz, deságua num imenso mar de dúvidas. Não se trata só de uma CPI para dissecar os laços da Delta com Carlos Cachoeira e seus tentáculos na política e nos governos. A ascensão fulminante da empresa e de seu dono, Fernando Cavendish, pode fornecer material para excelente estudo sobre o Brasil moderno. Como se fazem essas fortunas, como se entrelaçam com interesses políticos, como prosperam à sombra do governo e como driblam os frágeis mecanismos de controle? Eis algumas perguntas sobre a mesa.
Isso foi sempre assim, dirão alguns. Mas há algo de singular na meteórica carreira de Cavendish como empreiteiro. O vice de Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão, afirmou que o segredo do sucesso da Delta era sua agressividade, traduzida em preços mais baixos. Mas a tática da Delta, de acordo com quem entende de licitações, era vencer com preço baixo e correr atrás dos aditivos que eram acrescentados ao valor inicial do projeto. Em alguns casos, de 300%! Se isso era tão evidente para o mercado, como escapou aos experientes responsáveis pelos contratos do governo? Foram todos enganados por um jovem ambicioso?
Segundo algumas reportagens, Cavendish é simpático e bonachão, por isso se aproximou do governador do Rio e se tornou seu amigo íntimo. Os repórteres esqueceram alguns traços que podem trazer ruído à fotografia: ambos gostam de viagens, hotéis caros, cruzeiros de luxo. É possível que uma extraordinária empatia tenha movido a amizade desinteressada deles. Mas seria preciso outro ajuste de imagem. Cavendish diz em gravações que seu método para conquistar políticos é comprá-los. Como pode sair comprando políticos Brasil afora se no Rio, onde grande parte da sua fortuna foi conquistada, usou só seus belos olhos? Pode ser que Cavendish, como Demóstenes Torres, seja um caso de dupla personalidade: no Rio é um santo, fora do Rio, um tremendo predador.
Lendo o que foi publicado, noto outros sinais de pureza nos gestos de Cavendish no Rio. Ele reuniu suas empresas, segundo a imprensa, e as registrou em nome de uma tia, professora em Pernambuco. Havia um programa humorístico em que o ator Miguel Fallabela dizia: “Salvem a professorinha”. Cavendish foi tão radical que pôs toda a sua fortuna na mão de uma delas.
Desde o desastre de helicóptero na Bahia em que morreram mulher e filhos de Cavendish, Cabral tenta explicar a amizade dos dois. O Ministério Público do Rio avaliou o caso e concluiu que não havia nenhuma ilegalidade, mas isso será revisto por um colegiado.
Cabral tende muito a proteger a privacidade de sua relação com Cavendish. Desmentiu logo que seria padrinho de um dos filhos dele: “Compadre, não. Somos só bons amigos”. Na verdade, é uma proteção que estende a todos os seus amigos empresários. Indício dela é o fato de não divulgar quantas vezes e com quem viajou pelo mundo, o que deveria ser público para quem exerce o cargo de governador. Houve várias tentativas de obter a lista no Rio. Em vão. Novas tentativas foram feitas via Câmara dos Deputados. De novo em vão, o PMDB não abandona os seus. Como jornalista, é preciso reconhecer que a imprensa não se interessou pelas constantes viagens de Cabral, provavelmente com família, babás, caros hotéis no exterior. No meu tempo de jovem repórter, isso era notícia. Agora é só uma ironia aqui e ali, piada. Mas notícia mesmo, texto e fotos, nada apareceu ao longo dos seis anos em que Cabral descobriu o mundo.
Não questiono a amizade dos dois nem o que lhes parece uma boa vida em Paris. Mas a falta de transparência protegeu a Delta. Suas obras seriam julgadas sob outro crivo e suas vitórias nas concorrências, examinadas com lupa. Obras sem licitação após os temporais na Serra Fluminense? Nem pensar.
Cabral e Cavendish podem esconder os detalhes de sua relação em nome da privacidade. Mas ela é um pedaço do Brasil moderno. Merece estudo, pesquisa, quem sabe até novela ou filme: jovens simpáticos e bonachões que conquistaram o Rio, viveram tragédias, viajaram pelo mundo e, com os serviços profissionais do ex-ministro José Dirceu, exportaram sua energia positiva para o Planalto: a Delta transformou-se na grande empreiteira do PAC.
Em 2010, quando denunciei os laços de Cabral com Cavendish, o TRE-RJ tirou o programa do ar e mais tarde me condenou a pagar multa. Recorri, por meio do advogado do partido. Era só o que faltava, derrotado na eleição, não tinha como pagar multa. O caso caiu nas mãos do presidente do TRE, Luiz Sveiter, que se considerou suspeito para julgá-lo e o passou adiante. A gente vai perdendo tudo, mas o humor eles próprios não nos deixam perder. Uma grande ajuda que a CPI do Cachoeira dará à geografia política do Brasil é iluminar a Delta, com todos os seus braços e canais. E trazer um pouco de transparência ao complexo sistema de dominação fluminense, em que se entrelaçam todos os Poderes, muitas vezes até o quarto poder, com objetivo de nos ocultar parte da verdade.
Numa CPI tudo pode acontecer. Quem sabe Cabral e Cavendish vivem uma amizade desinteressada e o esquema de proteção que envolve o governador não é só uma conspiração do bem contra invasores da privacidade alheia? Como neste momento tudo é suposição, que tal começar pelas obras, seus preços e sobrepreços, maracutaias e maracanãs? Há uma história material a desvendar e só os fatos podem separar a realidade da fantasia.
Não sei se a CPI vai descobrir muita coisa. Na verdade, minha experiência mostrou que ela suscita mais descobertas do que propriamente as faz. De longe, só posso dizer que o Rio continua lindo, nada deveria impedir o Brasil de conhecê-lo melhor. O Rio de Janeiro, fevereiro e março, alô, alô, Cachoeira, aquele abraço.
Propaganda do PV exibida em 06/09/2011, censurada pelo TRE/RJ
Artigo publicado no Jornal Estado de São Paulo em 27/04/2012

























Governador 2010