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: 2 de julho de 2008

         
 



Milagre da competência


autor
Fernando Gabeira
  Ingrid Betancourt - Rodrigo Arangua/Agence France-Presse - Getty Images

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A operação foi absolutamente fantástica.

Esta frase de Ingrid Bettancourt revela sua alegria e admiração pelo trabalho que o Exército colombiano realizou nas selvas. Sem um tiro, 15 pessoas foram libertadas e dois comandantes da guerrilha presos. Todos ansiávamos por esse dia. Mas todos temíamos a morte dos prisioneiros se houvesse uma tentativa de resgate.

O exército colombiano mostrou-se capaz de infiltrar sem despertar suspeitas, o que é muito dificil em organizações fechadas e paranóicas. De certa maneira, através dele os sonhos de todos os que lutavam para que os refens fossem libertados se realizaram. Participamos do comitê pela libertação de Ingrid, criado em Sâo Paulo, e muitas vezes pedimos ajuda ao Itamarati. Todos os que ajudaram, inclusive o governo brasileiro, merecem nossa gratidão.

Esse caminho acabou se mostrando muito mais positivo que o que usava a intermediação de Chavez e libertou Clara Rojas. Muitas vezes a família alertou ao Presidente Uribe sobre os perigos do resgate. Mas a competência em operações desse tipo faz com que as pessoas sintam o êxito como se fosse um milagre.

Esse mesmo nível de competência será vital para que se resolvam problemas de ocupação armada em outros pontos do mundo. No Rio, por exemplo.

Viva Ingrid, vivam todos os reféns.

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Farc libertam Ingrid Betancourt e outros 14 reféns na Colômbia

O governo da Colômbia afirmou nesta quarta-feira (2) que a refém Ingrid Betancourt, três reféns americanos e outros 11 seqüestrados foram libertados pelas Farc.

De acordo com o ministro da Defesa colombiano, Juan Manuel Santos, o resgate foi realizado em zona de selva do departamento de Guaviare, no sudoeste da Colômbia, e os reféns estão em boas condições de saúde.

"Seguiremos trabalhando na libertação dos demais seqüestrados. Fazemos um apelo aos atuais líderes das Farc para que não se matem, libertem os outros reféns e não sacrifiquem seus homens", disse Santos.

A senadora e então candidata à presidência da Colômbia Ingrid Betancourt foi seqüestrada pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) no dia 23 de fevereiro de 2002, junto com sua companheira de chapa Clara Rojas. A ação aconteceu perto de San Vicente del Caguán, 740 km ao sudeste de Bogotá, durante o governo de Andrés Pastrana.

Poucos dias depois do seqüestro de Betancourt, a guerrilha ofereceu libertá-la em troca de rebeldes presos pelo governo colombiano. Nas eleições presidenciais que aconteceram em 26 de maio daquele ano, a candidata recebeu apenas 0,5% dos votos.

Na ocasião foi eleito Álvaro Uribe, partidário da linha dura com a guerrilha. Antes de sua posse, no começo de agosto, as Farc divulgam um vídeo de Betancourt gravado no dia 15 de maio.

Já no poder, Uribe revela um plano para enviar rebeldes presos ao exterior, com apoio da França, em troca da libertação de seqüestrados políticos. A troca seria de 45 reféns, incluíndo Betancourt -que é cidadã franco-colombiana-, por 500 guerrilheiros presos.

Um dezembro, as Farc exigem que sejam desmilitarizados dois departamentos (total de 115.000 km2) para negociar a troca.

Apenas em abril de 2003, a guerrilha designa três negociadores para a troca. Em 9 de julho, a França envia um avião a Manaus, na Amazônia brasileira, para uma eventual libertação de Betancourt, numa operação secreta que fracassa.

Um mês depois, Betancourt aparece pela segunda vez num vídeo, gravado em maio de 2003.

Em dezembro de 2004, o presidente colombiano Álvaro Uribe liberta 23 guerrilheiros para destravar o bloqueio a um acordo. No dia seguinte, as Farc pedem a libertade de 500 rebeldes e a desmilitarização de mais um território, de 800 km2, que inclui os povoados de Florida e Pradera.

Um ano depois, em 13 de dezembro de 2005, França, Espanha e Suíça propõem negociar a troca de reféns por prisioneiros em uma pequena propriedade rural no sudeste da Colômbia, com observação internacional. Uribe aceita. Mas em 2 de janeiro de 2006, a guerrilha diz desconhecer a proposta européia e considera que negociar seria favorecer Uribe, que estava em campanha para reeleição.

Em maio, Uribe é reeleito para um segundo mandato. Quatro meses depois, as Farc divulgam um vídeo com 12 deputados reféns. Um líder assegura que Betancourt vive nas mesmas condições que os guerrilheiros.

Em 28 de setembro, Uribe anuncia a disposição de desmilitarizar os povoados de Flórida e Pradera. Mas em 20 de outubro, o governo suspende as aproximações devido à explosão de um carro-bomba, atribuída às Farc, em uma universidade militar em Bogotá.

No início de 2007, Uribe diz ante a cúpula da polícia que o ano será "crucial para resgatar os seqüestrados". A França e a família de Betancourt se opõem a uma operação militar.

Em 28 de abril, o policial John Frank Pinchao, que partilhava o cativeiro com Betancourt, consegue escapar e conta que ela permanece num acampamento na selva do sudeste da Colômbia.

Em 6 de maio, em seu primeiro discurso após ser eleito presidente da França, Nicolas Sarkozy afirma que não esquecerá da sorte de Betancourt. No mês seguinte, Uribe começa a liberar mais de 120 guerrilheiros, entre eles o chamado "chanceler" do grupo, Rodrigo Granda, cuja liberdade foi solicitada por Sarkozy.

Em 28 de junho, as Farc anunciam que 11 deputados reféns morreram em um "fogo cruzado com um grupo militar não identificado". Uribe acusa a guerrilha de assassinato. Em agosto, o presidente colombiano volta atrás e se diz disposto a negociar em três meses a paz. Como as Farc recusam a proposta, no mesmo mês Uribe nomeia a senadora da oposição Piedad Córdoba como facilitadora para a troca.

Em 17 de agosto, o presidente venezuelano Hugo Chávez aceita fazer a mediação entre as Farc e Uribe. Três dias depois, Chávez recebe em Caracas familiares dos reféns. Nos dias seguintes, o presidente venezuelano conversa com Sarkozy por telefone sobre o caso.

Três meses depois, porém, Álvaro Uribe suspende a mediação de Chávez junto aos rebeldes, acusando o presidente venezuelano de ingerência nos assuntos internos da Colômbia.

Em 30 de novembro, o governo colombiano divulga provas de vida de Betancourt, de três norte-americanos e de alguns políticos, militares e policiais seqüestrados pelas Farc. As provas haviam sido apreendidas junto a três supostos rebeldes. Na ocasião foram divulgados uma carta de Betancourt a sua mãe e um vídeo. A gravação mostra a em silêncio, abatida e cabisbaixa.

No final de dezembro do ano passado, a guerrilha anunciou a intenção de entregar a Chávez a ex-deputada Consuelo González, a ex-candidata a vice-presidente Clara Rojas e o filho dela, Emmanuel, nascido em cativeiro. A decisão é um ato de "desagravo" ao afastamento do venezuelano da negociação.

As Farc não revelam o local da entrega dos reféns e a operação de resgate é cancelada após três dias de incertezas, em meio a acusações das Farc e de Hugo Chávez de que o governo colombiano foi responsável pelo fracasso do plano. O presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, alega que a entrega não foi concluída porque as Farc não estariam com o menino Emmanuel.

Em 4 de janeiro de 2008, um exame de DNA revela que um menino sob proteção do governo da Colômbia desde 2005 é Emmanuel, filho de Rojas. As Farc reconhecem que não estão com o menino. Cinco dias depois, o presidente Chávez diz que as Farc vão libertar González e Rojas. O governo de Caracas pede autorização a Bogotá, que dá luz verde à nova missão humanitária.

Em 10 de janeiro, as Farc libertam as duas políticas em uma região na selva do departamento de Guaviare. No começo de fevereiro, o anúncio de mais três libertações. Em 27 de fevereiro, são entregues os ex-parlamentares Luis Eladio Pérez, Orlando Beltrán, Gloria Polanco e Jorge Eduardo Gechém.

Em entrevista após sua libertação, Pérez afirmou ter visto Betancourt em janeiro, quando os grupos de reféns dos quais faziam parte se encontraram em uma caminhada pela selva. Eles se viram pela última vez em 4 de fevereiro.

Segundo Pérez, Betancourt estava "muito deteriorada, física e moralmente". Durante o encontro, ele recebeu objetos destinados por ela a sua mãe, Yolanda Pulecio, a sua irmã Astrid e a seus filhos Melanie e Lorenzo Delloye, frutos do casamento da com o diplomata francês Fabrice Delloye.

Entre eles, está um cinto que Betancourt fez "com muito esforço, para que fosse entregue a Melanie", declarou o ex-refém. "(Betancourt) Disse-me, com muita emoção, que já tinham dado a ela vitaminas e cálcio e que estava tratando de se recuperar um pouco", lembrou Pérez.

   
         
 



Brasileiros na Europa


autor
Fernando Gabeira
  2.7.2008

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Lula e os líderes do Mercosul fizeram bem em rejeitar a nova européia para estrangeiros. Ela é muito restritiva. Trabalho com o tema há algum tempo. Os europeus fecham o cerco.

A chamada operação Amazon foi praticamente voltada à prisão de brasileiros e latino-americanos.

Cheguei a convidar o Itamarati para explicar qual tinha sido nossa reação.

A possibilidade de prender a pessoa 18 meses, a separação das crianças, tudo isto torna muito pesada a pressão européia contra os estrangeiros, especialmente contra a América Latina, que, no passado, foi um dos pontos para onde os europeus vieram.

O Brasil deveria ir mais longe e sugerir à ONU, como há muito tempo venho pedindo ao governo que o faça, uma conferência internacional sobre migrações. As mercadorias e o dinheiro fluem tranquilos; as pessoas, não.

   
: 1 de julho de 2008

         
 



A inflação no caminho


autor
Fernando Gabeira
  1.7.2008

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Aos poucos o noticiário econômico vai se afirmando, porque no horizonte estão dois velhos conhecidos: a desaceleração econômica e a inflação.

O Estado de São Paulo publica uma reportagem que inquieta: a inflação, nos últimos seis meses, cresceu mais que os principais fundos de investimento.

O mais inquietante está na própria frase do Ministro Mantega, dizendo que o fenômeno inflacionário era pontual e atingia apenas aos alimentos.

É exatamente aí que a coisa pega. Famílias que vivem da ajuda do governo são obrigadas a comprar menos comida. Pequenos salários são atingidos nesse processo que aponta para uma inflação anual de seis por cento, mas, ao mesmo tempo, acende o sinal amarelo.

O governo já anunciou seu projeto de corte de gastos. Por que não o fez até agora? Ele acreditava que é possível gastar mais sem estimular a inflação. Durante os últimos meses, vivemos um pré-eleitoral. Parece que todos os anos eleitorais são amigos da inflação.

A situação internacional foi excelente para puxar o crescimento. Mas ela vai mudando e recoloca a importância de um choque de gestão no Brasil. É um velho tema, esse dos gastos públicos. Chegou a hora de encará-lo , antes que seja tarde.

   
: 27 de junho de 2008

         
 



Uma eleição agitada


autor
Fernando Gabeira
  27.6.2008

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O período pré-eleitoral no Brasil, comparado ao norte-americano, nos faz sentir um pouco na Idade Média. Enquanto nos EUA os pré-candidatos percorrem o país, falam com eleitores, captam recursos e mobilizam seus eleitores, aqui quase tudo é proibido.

A decisão do TSE de permitir de candidatos sobre seus planos foi um avanço, em relação ao quadro brasileiro. Mas o processo ainda nos deixa engessados.

A campanha começa no dia 6. Não podemos lançar panfletos no dia 6, nem captar recursos. Vamos depender de uma conta que só será aberta depois. O que adianta permitir o começo de campanha se não podemos lançar material?

Da mesma maneira, a batalha pela liberdade na foi intensa. O blog de Pedro Dória, por conter uma foto minha e a data 2008, foi notificado.

Aliás, a luta pela liberdade na foi feita um pouco nas sombras. Os jornais não se deram conta, exceto o JB, que a cobriu desde o início.

Foi um pouco como aquela fábula sobre o nazismo: pegam seu vizinho e você não reclama, sem saber que um dia virão pegar você. Os jornais só deram conta da legislação restritiva quando a Folha publicou a entrevista de Marta Suplicy. Era um pouco tarde. A pré-campanha se passou toda nessa luta. Daqui a pouco será dia 6. Eu mesmo tive de retirar do nosso portal a entrevista que concedi ao Le Monde Diplomatique, versão brasileira.

Foi uma pré-campanha nas sombras. Ela mexeu com minhas lembranças brasileiras. Aqui, a ditadura foi fácil, também, porque as pessoas têm medo de protestar. Raríssimos candidatos levantaram a voz. Não querem se indispor com juízes. Mas se não enfrentamos os juízes, quando necessário, afinal somos candidatos a quê?

   
: 26 de junho de 2008

         
 



A mulher que modernizou a política social brasileira


autor
Gabeira.com
  25.6.2008

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Para o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), Ruth Cardoso se destacou por ter conseguido fazer com que a social do governo federal fosse maisabrangente e incorporasse a iniciativa privada neste processo.

Leia aqui texto de Miriam Leitão sobre Ruth Cardoso publicado no portal Globo Online:

Ruth Cardoso modernizou o papel de mulher do presidente no Brasil e marcou profundamente as políticas sociais brasileiras. Ela sempre rejeitou a expressão "primeira dama", mas depois dela a denominação ganhou outro sentido.

Nunca houve uma primeira dama assim, e talvez demore a aparecer alguém com o mesmo conjunto de virtudes. Ruth era inteligente, culta, discreta e extremamente capaz. A sua idéia de criar o "comunidade solidária" acabou com o estigma de que a mulher do presidente da República, quanto tem alguma ação social, tem que ser necessariamente de políticas assistencialistas. No Comunidade Solidária, o estado tinha o papel de coordenação entre o setor privado e a carente. Empresas passaram a adotar com alto índice de analfabetismo, ou passaram a patrocinar determinadas causas ou regiões. O Estado era apenas o elo entre o patrocinador e o cidadão. Ruth teve um papel fundamental na decisão de levar para nível federal a idéia do Bolsa Escola que nasceu em Campinas em 1995. Teve também papel importante na mudança da politica educacional na direção de buscar a universalização do ensino básico.

Não se ouvia falar de interferência politica dela em nenhum ministério. Seu papel era influenciar os grandes rumos das políticas sociais.

Antropóloga reconhecida no exterior pela suas qualidades intelectuais, Ruth durante o período do governo de Fernando Henrique, foi várias vezes ao exterior dar aulas e cursos em universidades americanas.

O Brasil perde hoje um modelo admirável de mulher que soube aliar a intensa vida intelectua às funções protocolares exigidas da mulher do presidente. O papel que a deixava desconfortável, a de "primeira dama", acabou sendo exercido com maestria. Ela o reinventou, tirando dele toda a marca do passado. Depois que acabou o governo Fernando Henrique ela continuou sendo a mobilizadora de recursos e apoios para as grandes causas de combate à pobreza e de avanços sociais no Brasil.

   
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